É Tudo Virose

Vocês lembram que, em 2015, Marcos Piangers intitulou os pediatras de “virosepatas” porque diziam que tudo era virose? Agora, em 2020, no auge da pandemia de SARS COV 2, as crianças estão em casa e as emergências e consultórios pediátricos vazios. Por quê? Porque o isolamento previne doenças virais. Trabalho em emergência pediátrica há 20 anos e nunca vi meses como estes últimos. Normalmente, muitas crianças estariam doentes, usando antibiótico, prejudicando sua microbiota, tendo diarreia e recebendo outro antibiótico ao qual seria alérgica, então, precisaria corticosteroide. Voltando para a creche, pegaria outro vírus e, talvez, precisasse de outro antibiótico mais forte, endovenoso, precisando 10 dias de hospital. Entendem o ciclo que se instala? Em julho, estaríamos com UTIs, emergências e enfermarias lotadas de crianças com bronquiolite e e asma, pneumonias e suas complicações. Aliás, vocês sabem que, todo ano, no inverno, as UTIs pediátricas ficam lotadas e muitas vezes precisamos “escolher” qual paciente receberá a vaga? Que bebês morrem em unidade básica de saúde por falta de respirador? Sabem que pediatras e equipes de enfermagem trabalham, todo inverno, sob forte pressão? Nada tão catastrófico como na pandemia da COVID, mas, sim, todo ano questionamos quando o sistema irá esgotar. E ele esgota, para muitas famílias que perdem seus filhos. Infelizmente, não vira notícia, nem campanha política. Infelizmente, não tem “remédio mágico” como Ivermectina (porque só acreditando em magia) que funcione contra vírus sincicial respiratório, adenovírus e meningococo B (contra a qual existe vacina, mas poucos têm acesso) como alguns exemplos. Carecemos de licença maternidade até 6 meses para apoiar o aleitamento materno exclusivo neste período. Muitos ainda recebem mamadeira de leite de vaca neste período e não fazem profilaxia com vitamina D? Aliás, vitamina D, agora, famosa por supostamente agir “contra” o SARS COV 2 – ela previne qualquer infecção como outras vitaminas e micronutrientes numa nutrição adequada.

Eu não sou a favor de confinar as crianças até os 12 anos. Minha filha foi à escola com 11 meses. Nunca adoeceu. É emocionalmente saudável e ama suas professoras e colegas. O cerne da questão é: qual condição o Estado fornece para as famílias oferecerem seu melhor para as crianças prosperarem? Vemos pobreza, falta de educação, profissionais de saúde passando orientações, no mínimo, equivocadas, pais e mães fora de casa por até 16h, filhos largados em “depósitos” de crianças desde os 4 meses, indo de um canto para outro, comendo qualquer coisa, sem receber todas as vacinas suas por direito.

A pandemia nos fez parar, vocês sabem onde estávamos indo? As crianças estão sofrendo com o confinamento em casa. O convívio com outras crianças faz falta. Mas, será que é certo voltarmos para o velho normal? Será que é justo com os pequenos? Precisamos construir respostas responsáveis.