A Força Nefasta da Média

Conversando com um colega médico muito inteligente, aprendi uma verdade absoluta: “o sistema tende a te puxar para a média”. O diálogo era sobre seguir ou não diretrizes internacionais nos atendimentos na emergência, sendo que aqui extrapolamos para qualquer profissão.
É comum falarmos sobre “o mundo real”e o “mundo dos livros”. Depois de 20 anos de formada e de trabalhar muito no mundo real, tenho certeza de que uma névoa maligna começa a nos distanciar do que é certo, do que é protocolo estabelecido por estudos sérios, com populações grandes que respeitam um rigor estatístico necessário para salvar vidas e evitar danos pensando na individualidade e na coletividade, afinal, somos interligados. É algo tão difícil que só pode ser aprendido numa faculdade que dura 6 anos em tempo integral (no caso da medicina) e que requer de 3 a 6 anos de especialização após a colação de grau numa modalidade que se chama “residência médica”, tamanho o tempo que passamos no hospital, ou seja, moramos lá. Isso para que possamos assistir ao maior número de pacientes e realizar o maior número de procedimentos possível. Para quê? Para não deixar ninguém sofrer além da conta por já estar doente ou até para não perder sua vida. E não é difícil imaginar este cenário em outras profissões.
Muitas vezes, procedimentos estabelecidos em diretrizes internacionais deixam de ser seguidos porque a equipe não tem condições técnicas e/ou habilidade de fazê-lo. Isto me faz lembrar de dois ditados: “uma mentira dita várias vezes vira verdade” e “uma besteira dita por muitos vira lei”. Penso que seria melhor treinar a equipe desabilitada. Simular os procedimentos à exaustão para que possam ser conduzidos de forma segura. Não, a opção é deixar de seguir os protocolos e “fazer o que dá”. Convenhamos, não estamos num campo de batalha no Afeganistão.
Lamentável ver protocolos e diretrizes bem estabelecidos sendo jogados no lixo em prol do que facilita a vida das instituições não se preocupando com o bem coletivo. Se eu não sei fazer, em vez de treinar para aprender eu não faço e ainda arrumo quem seja meu parceiro e decrete o seguinte: ” já que não sabemos fazer não faremos”. E tem mais, quem segue o protocolo é que passa a ser visto como “outlier”, quase um louco.
À luz de tudo o que há disponível de tecnologia e sistemas de treinamento e simulação não consigo aceitar tamanho retorno às trevas. Rogo para que todos se sintam motivados por um propósito maior e não deixem o sistema os puxarem para a média. Para que busquem a excelência não só a remuneração.
Nada gera mais ansiedade e erros nos processos do que a insegurança. Repito o velho exemplo dos pilotos de avião. Eles simulam o tempo todo e precisam ser certificados periodicamente para que possam exercer sua profissão. Se nossos conselhos, não nos cobram isso, que nossa consciência nos cobre, antes que algo mais poderoso o faça.

Aline Friedrichs de Souza